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O assassínio de Rosa Luxemburgo: Uma tragédia e uma farsa

Há cem anos, uma das mais fervorosas defensoras do socialismo internacional era brutalmente executada, a mando de antigos camaradas de partido. Dirigente política ainda no tempo em que as mulheres não podiam votar, Rosa Luxemburgo cofundou o partido comunista alemão, mas não poupou críticas à Revolução Russa. Ícone revolucionário de feministas, pacifistas ou marxistas, sobrevive a sua herança política e a repulsa perante o seu homicídio Quando estalou a repressão contra a esquerda alemã, a 5 de janeiro de 1919, os amigos mais próximos de Rosa Luxemburgo aconselharam-na a abandonar Berlim e a refugiar-se numa cidade mais discreta e, por isso, mais segura. Perante estes apelos, a sua resposta era invariavelmente a mesma. Ora, se os trabalhadores berlinenses não tinham onde se refugiar, abandoná-los seria uma deserção. Rosa Luxemburgo tinha sido libertada da prisão há escassos dois meses, ao fim de três anos de cárcere, e não estava disposta a fugir ao combate, apesar da desigualdade ...

Ligue já para comprar o cogumelo do tempo de Salazar

Como simpatizante da democracia e do Estado de Direito, acho que quem cumpre a pena pelos seus crimes passa a ser um cidadão como os outros e não sou contra o debate contra pessoas que têm ideais que vão contra os direitos humanos. Quero começar por dizer que não sou contra o debate contra pessoas que têm ideais que vão contra os direitos humanos. Seja um homofóbico, um racista, ou um nazi, acho o debate importante para destruir as ideias extremistas que nascem aqui e ali. Acho que varrer o lixo para baixo do tapete é mais perigoso do que dar-lhe tempo de antena e não tenho dúvidas de que tenha sido essa política da demonização sem debate e da censura através politicamente correcto que deu força a Trump, Bolsonaro e outros movimentos de patetas que deram à costa nos últimos anos. Dito isto, é parvo ter um nazi num programa da manhã de uma televisão? É um bocado. Principalmente quando é apresentado como “Autor de algumas frases polémicas”. Não, não foi por algumas frases polémi...

A crise do Euro e o défice democrático na Europa

A crise do Euro e o agravar do problema do défice democrático europeu Na minha última crónica, analisei o recente livro Carlos Gaspar (2017). O autor divide a sua história sobre a geopolítica da Europa contemporânea em quatro eras. Sobre a última e corrente época, «O declínio da Europa», Gaspar fala-nos das três crises europeias, ou seja, da crise do euro, da crise dos refugiados e da crise das políticas europeias. Já tive oportunidade de relevar as virtudes da obra. Porém, identifiquei também uma fragilidade: o fraco relevo dado ao problema do défice democrático europeu, e à crescente tecnocratização do governo da EU, como uma das fontes essenciais das «crises europeias».  O objeto da presente crónica é, por isso, esse mesmo: a crise do Euro e o agravar do problema do défice democrático europeu. Sirvo-me, para tanto, de vários livros (relativamente) recentes: Torreblanca, 2014; Freire, 2015; Hennette et al, 2017. O perene problema do défice democrático europeu ...

A QUALIDADE DA DEMOCRACIA ESTÁ EM DECLÍNIO EM MUITOS ESTADOS INDUSTRIALIZADOS

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Um estudo publicado pela Fundação Bertelsmann conclui que a qualidade da democracia está em declínio em muitos estados industrializados, tendo os seus padrões de qualidade vindo a ser deteriorados ao longo dos anos. Globalização, desigualdade social e protecção do clima - dados os enormes desafios enfrentados pelos países da OCDE e da UE, é de se esperar reformas mais vigorosas. No entanto, como as nossas conclusões mostram, a erosão dos padrões de democracia e a crescente polarização política estão a dificultar a implementação de reformas sustentáveis. A qualidade da democracia na OCDE e na UE diminuiu nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a crescente polarização política tornou o trabalho quotidiano da governação e, portanto, a capacidade de reforma dos estados membros mais difícil. Os governos de vários países, como os Estados Unidos, a Hungria e a Turquia, estão deliberadamente a alimentar as tensões sociais em vez de procurar consenso num esf...

Os nossos bolsonaristas

A melhor forma de fazer eleger um qualquer Bolsonaro, pouco importando se é cabo ou capitão, é difamando a democracia e os seus políticos, algo a que assistimos diariamente no nosso país. E na liderança dos que difamam a democracia são os que usam a Justiça para meter o país a ferro e fogo, com o objetivo de se promoverem a nossos heróis e forçar o país a adotar os governos que querem fazer eleger. Vimos isso no Brasil com o juiz Moro a destruir políticos, ajudando a extrema-direita para depois se fazer escolher a si próprio como ministro todo poderoso. Não deixa de ser curioso como nos últimos anos temos assistido a laços cada vez mais íntimos entre algumas personagens da nossa Justiça e gente da Justiça brasileira. Aliás, os nossos não se têm cansado de elogiar os mecanismos de investigação e de condenação adotados pela justiça portuguesa, propondo a sua adoção em Portugal. Todos os dias recebemos mensagens falando mal dos nossos políticos, apresentando-os como par...

Brasil – Habemus PR Bolsonaro. Consummatum est

A tomada de posse de Jair Messias Bolsonaro foi o ato final de legitimação do golpe de Estado contra Dilma. Lá foi Michel Temer, que a traiu, a devolver a faixa presidencial, à espera da prisão, pois, ao contrário de Lula, há gravações que provam a sua corrupção. Da conspiração das Igrejas evangélicas, com homilias, órgãos de comunicação e crentes destacados nas redes sociais, sai mais poderoso o bispo Edir Macedo e mais próximo do Paraíso quem paga o dízimo, em suaves prestações, na compra de uma assoalhada junto a Deus, mas foram os grandes interesses económico-financeiros que aprontaram o golpe e o conduziram. Nos políticos conluiados com o poder judicial, para afastar o previsível vencedor, Lula da Silva, estava o juiz Sérgio Moro, cuja ambição dispensou um período de nojo entre a prisão, investigação e julgamento do adversário político e a entrada imediata no governo do fascista assumido, machista, homofóbico, racista, xenófobo e violento. Bolsonaro, depois de uma carreira m...

Retoma do emprego, mas não dos salários

A expressão “recuperação sem emprego” (“jobless recovery”) foi cunhada na década de 1990 para caracterizar a economia norte-americana, que após a recessão de 1990-91 regressou ao crescimento económico sem que o desemprego diminuísse. Algumas das explicações então aventadas para este fenómeno incluíam a deslocalização de partes do processo produtivo para outras partes do globo e os aumentos da produtividade associados às novas tecnologias de automação e informação: ambos os processos tenderiam a aumentar o produto por trabalhador empregado, quebrando a ligação entre as dinâmicas do produto e do emprego.  Hoje em dia, no contexto da recuperação após a Grande Recessão e as diversas ondas de choque que a têm caracterizado, o problema central da recuperação económica nas economias avançadas é de uma natureza diferente. Tanto na Europa como nos Estados Unidos, a taxa de desemprego caiu fortemente nos últimos anos, encontrando-se actualmente em níveis bastante reduzidos face aos padr...